Total de visualizações de página

02 fevereiro 2026

60 anos operado do coração

 

Neste dia 2 de fevereiro de 2026 faz 60 anos que fui operado do coração. Eu nasci com uma deficiência cardíaca congênita chamada Comunicação Interatrial, Também conhecida pela sigla: CIA. O ano era 1966. Independentemente do que acontecia no país e no mundo, tratarei de uma história pessoal e minhas impressões atuais sobre a vida que venho vivendo desde que nasci, a 13 de março de 1959.

No dia 2 de fevereiro de 1966, eu morava na Vila dos Comerciários (seu nome oficial era Conjunto Residencial Lafayette Coutinho), no Grupo 45, casa 14,térreo e estava na casa de vovô Vasco e vovó Dolores, que moravam na casa acima da que eu morava. Quando cheguei em casa, encontrei Zezé, enfermeira do Hospital D. Pedro II, com mamãe, arrumando minha maleta. Perguntei se ia ser operado. Zezé respondeu que não, mas que eu ia fazer uma série de exames e, para que mamãe não tivesse que me levar todos os dias, eu ia passar alguns dias no hospital pra fazer esses exames.

Ao chegar no hospital, fiquei num quarto com mamãe. Depois, mamãe saiu, dizendo que ia preparar meu almoço.

Achando que mamãe estava demorando muito pra voltar, vesti minha roupa, calcei as meias, peguei os sapatos e fui me dirigindo à saída, calçaria os sapatos no corredor do hospital, pra não fazer barulho.

Ao chegar à porta, a enfermeira me chamou pra voltar pra cama, pois ia tomar remédio. Voltei pra cama com raiva. Ela me deu um copinho com um remédio muito amargo e fiz careta por causa do amargor. Ela me ofereceu uma maçã, que comecei a comer...

Acordei na madrugada do dia 3 e tomei um susto, pois via duas televisões com aquelas linhas que se mexiam (depois soube que eram meus batimentos cardíacos). Chamei por mamãe e entrou uma enfermeira chamada Rosa, com uma injeção pra aplicar em mim. Perguntei sobre aquele aparato todo e ela me disse que pela manhã, os médicos e mamãe viriam falar comigo. Aplicou a injeção na minha coxa e eu dormi.

Acordei cedo, já com o dia claro. Mamãe estava com meu mingau e os médicos: Dr. Mauro Arruda, Dr. Milton Lins e Dra. Norma Palmeira. Me explicaram aqueles monitores. Me disseram que o exame era complicado e eles resolveram operar logo pra encerrar as minhas idas frequentes pra fazer exames.

Oito dias depois, eu estava em casa. Era perto do Carnaval. Tocava frevo nas rádios.

Eu ficava pulando "escondido" no quarto dos meus pais, afinal, "quem ouve o frevo, não pode ficar parado", já diz o frevo de Capiba. Eu, criança, perto de completar 7 anos, não era diferente. Me punha a pular sobre o colchão de molas dos meus pais.

Ao ser flagrado, escutava um "te aqueta, menino!" E me controlava sob protestos. É que eu ainda não tinha tirado nem os pontos da cirurgia.

Lembro que uma vez, ainda com pontos no peito, duas pequenas incisões de cada lado do umbigo (onde ficaram os drenos), nas duas virilhas, onde numa ficava o soro e na outra ficou a máquina da circulação extracorpórea e no pulso (que também era parte dessa circulação pela máquina).

Lá em casa não tinha grades nas janelas ainda. Teve um dia que eu escutei acordes de frevo. Era o bloco Amantes das Flores, que estava chegando na rua Gomes Coutinho. Eu pulei a janela, pulei o muro de vovô Vasco e fui pro bloco. Meus pais, ao escutarem o frevo na rua, entraram no quarto pra me pegar pra ver o carnaval. Encontraram-me fazendo o passo junto à orquestra, sob os olhares espantados dos vizinhos.

Papai me pôs nos braços e depois dos Amantes das Flores ainda passaram as tribos de caboclinhos Canindés e Tabajaras e o Homem da Meia Noite (que eu chamava de "Gigante da Meia Noite").

Papai botou grades nas janelas dos dois quartos.

Depois do Carnaval, tirei os pontos e passei a viver uma vida normal

Até completar 17 anos fazia exames de coração uma vez por ano.

Depois, já adulto, e trabalhando na Prefeitura de Olinda, passei a fazer check ups anuais. Nunca senti mais nada relativo ao coração.

Hoje, perto de completar 67 anos, agradeço a todos os responsáveis por eu estar vivo:

Ao meu tio João, que doou sangue pra mim durante a cirurgia. Aos médicos Helena Moura (que descobriu que eu tinha um sopro no coração), Mauro Arruda, Mílton Lins e Norma Palmeira (equipe de cardiologistas), às enfermeiras Rosa, Zezé e Zilda e aos estudantes de Medicina que doaram sangue pra mim, na pessoa do Dr. Flávio Pabst.

24 julho 2025

Parada da Diversidade de Pernambuco - 17.set.2023

Esta Parada, pra mim, foi marcante: primeiro porque, desde que eu participo do Fórum e que fico na Portaria do palco, pela primeira vez, meu companheiro Ivanildo foi, com minha irmã Kathleen.
Depois, fui pro trio do Coletivo de Lésbicas, mas como ultimamente fico com o estômago meio embrulhado com outras cervejas que não seja Heineken (que bicha velha mais metida! Só quer ser as "pregas de Odete!"), desci pra comprar uma lata pra mim, nisso, findei sendo chamado por Anderson, do Ser Coletivo. Irene Freira fez uma fala nesse trio, aí, eu fui descer novamente pra pegar outra latinha de cerveja. Eu e Irene descemos juntos e ela me chamou pro trio do Bloco da Diversidade.
Músicas de carnaval, o que me atiçou a verve de folião. Depois, a presidenta da UNE fez um discurso que me emocionou a ponto de chorar! Lembrei do início do GATHO, quando a gente começava a brigar pra ter o direito de viver livremente, amando, sentindo prazer. Cobrando o devido respeito da sociedade.
E como agradeci à vida por ver, ouvir, viver esse momento do discurso da líder estudantil (eu também fiz movimento estudantil.) E lembrar da luta inclusive contra o discurso da esquerda tradicional, que nos rotulava de “decadência do capitalismo”
E eu, aqui, tendo testemunhado tudo isso, me emocionei com o discurso da "Universidade Fora do Armário"!.
Agradeço a todo mundo que estava junto conosco hoje.
Parabéns pra nós! Esperando estar bem no próximo ano pra poder mais uma vez participar da Parada da Diversidade!
Muito obrigado, pessoas queridas do Fórum LGBT de Pernambuco!
Para o ano tem mais! E já tem data: 15 de setembro de 2024!

21 julho 2025

Faz 50 Anos que Tapacurá (não) Estourou

 Gostaria de ter postado antes, mas comecei a escrever e editar. Findei só conseguindo fazer agora.

16 de julho de 1975, quarta-feira.

Procissão de Nossa Senhora do Carmo, padroeira do Recife. Tia Glaura foi acompanhar a procissão, como sempre.

Durante a procissão:

– Minha filha, vai acontecer uma desgraça. – Disse uma senhora a minha tia.

– Oxente, minha senhora, o que vai acontecer? Por que a senhora está dizendo isso? –indagou minha tia.

– Esqueceram de botar a coroa na imagem da santa…

Passou-se. Titia voltou pra casa, na Madalena. Começou a chover.

xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx

Era feriado no Recife e também mês de férias estudantis. Minha irmã, Kathleen havia ido pra casa de tia Gisela, na Vila dos Comerciários. Começam os avisos de chuvas nas cabeceiras do rio Capibaribe.

O Recife havia sofrido com as cheias de 1966 e de 1970. Mas haviam construído a barragem de Tapacurá e, com a inauguração, veio a promessa de que o Recife estava livre do fantasma das cheias. Ninguém ligou para os avisos daquele 16 de julho.

17 de julho de 1975, quinta-feira

O Recife está sob cheia do rio Capibaribe. Lugares da capital, onde nunca havia enchido, estava sob enchente. A Vila dos Comerciários, que nas cheias anteriores, de 1966 e 1970, havia sofrido parcialmente, em 1975 ficou quase toda tomada pelas águas.

18 de julho de 1975, sexta-feira

Recife continua tomada pelas águas. Não se tinha notícias, em Olinda, dos parentes que estavam em áreas alagadas. O que era uma preocupação maior, pois, além de minha avó Maria, as tias Flávia e Glaura, os tios Milton e Tonho e as primas Carol e Michele, que eram bebês, ainda tinha tia Gisela e o marido, tio Orígenes, os primos Roberto, Carlos e Gisela Maria e minha irmã, Kathleen, que estavam na Vila dos Comerciários, em Casa Amarela.

19 de julho de 1975, sábado.

As águas começaram a baixar. Eu e mamãe saímos pro Recife. Fomos à casa da mãe dela, vovó Maria. A ponte da Torre havia perdido a cabeceira, na junção da Visconde de Irajá. Fomos pela Rua José Osório, Rua Visconde de Albuquerque até a rua em que vovó morava, a rua J. A. da Silveira. Estávamos a pé. Os pés atolavam na lama.

Chegamos lá e tudo estava bem. A água havia chegado ao patamar do apartamento em que moravam e estavam todos bem.

Eu e mamãe, seguimos pela ponte da Torre, pois só se passava a pé, pois a cabeceira havia sido levada pelo Capibaribe. Rua Amélia, Rosa e Silva, Estrada do Arraial e só vendo os estragos provocados pela força das águas nos Aflitos, Graças, Tamarineira. Chegamos à Vila dos Comerciários e vimos mais estragos. As casas mais próximas da Estrada do Arraial completamente estragadas. Chegamos à casa de tia Gisela pela rua Gomes Coutinho. Tia Gisela havia perdido tudo. Da sala à cozinha, passando pelos quartos. Ajudamos na limpeza da casa. Voltamos pra Olinda no fim da tarde com minha irmã.

No Jornal Nacional, extensa matéria sobre a enchente no Recife. No final, Ernesto Geisel, o ditador da vez, anuncia a liberação do FGTS para os moradores do Recife na segunda-feira, dia 21 de julho.

20 de julho de 1975, domingo

As pessoas desabrigadas continuam a voltar para suas casas, outras, continuavam nos abrigos públicos em escolas e igrejas. A limpeza de casas, de quem não as perdeu, era a tônica, assim como a verificação e constatação das perdas.

21 de julho de 1975, segunda-feira.

Lá pelas 8 da manhã, fui à cidade pra comprar os passes estudantis meus e de meus irmãos.

Naquela época, o estudante morador de Olinda tinha um ritual diferente: fazer uma petição, em nome um dos pais, ao delegado de Polícia de Olinda, no Varadouro, solicitando o Atestado de Pobreza. A essa petição eram juntadas cópias dos Registros de Nascimento de cada filho, além de cópias do RG dos pais. Entregava na Delegacia. Uma semana depois, ia pegar o Atestado de Pobreza na unidade policial e levar todos os documentos ao Departamento de Terminais Rodoviários de Pernambuco – DETERPE, que ficava no Terminal Rodoviário de Santa Rita, no centro do Recife. Cada estudante tinha direito a 70 passes por mês e cada um recebia uma capa de talão, onde era anotado o número de passes comprados na última vez.

Passei no escritório do meu pai, na Rua da Saudade, peguei o dinheiro pra comprar os passes e segui pela Conde da Boa Vista, Guararapes, Praça da República, Larga do Rosário, Estreita do Rosário, Praça 17. Na esquina havia uma farmácia Drogaluz na qual entrei pra me pesar (toda farmácia dispunha de uma balança e as pessoas entravam nas farmácias só pra se pesar). Havia uma cidadã falando com a balconista que a repartição onde ela trabalhava havia dispensado todos os funcionários porque o chefe recebeu um telefonema dizendo que "Tapacurá estourou". Não dei ouvidos e segui pra Rodoviária, comprei os passes e voltei pela rua Duque de Caxias, como sempre fazia, e ao chegar na Pracinha (a Praça da Independência tinha esse "apelido"), percebi as pessoas correndo a esmo e gritando. Um senhor pega no meu braço e diz: "Corra, meu filho, que Tapacurá estourou!".

Aí, eu corri! Corri até a cabeceira da Ponte Duarte Coelho. Minhas pernas falharam, eu estava em pânico. Fui me puxando pela balaustrada da ponte até a frente do Cinema São Luiz. Ali, já desistindo e me despedindo da vida. Eu olhava pro rio Capibaribe e via as águas subindo. Não conseguia correr. Só me restava esperar o rio subir a ponto de me levar do quem-me-quer da frente do São Luiz.

Não sei o tempo que fiquei aí sentado. Só sei que vi muita gente com uma nota de cem cruzeiros com a efígie de Floriano Peixoto oferecendo a quem tinha automóvel e ninguém aceitava. Vi quando retiraram os blocos de concreto (popularmente chamado de gelo-baiano) que bloqueavam o acesso direto a Olinda, vi mulheres grávidas desmaiarem na calçada. A cidade estava cheia de gente que saiu pra comprar itens mínimos pra ter em casa, já que tinham perdido tudo.

De repente, minhas pernas começaram a "esquentar" e eu comecei a correr pro escritório do meu pai, que já estava com o carro de portas abertas e o som do rádio anunciando que era um boato. Meu pai me tirou da histeria coletiva me dando um forte sacolejo e me fez ouvir o rádio.

Depois que me acalmei, fui pegar o ônibus de volta pra casa, em Olinda. No ônibus, encontrei mamãe, que havia perdido as sandálias e estava meio atônita e com os cabelos assanhados. Também estava correndo do Tapacurá.

Ao chegar em casa, peguei uma ficha pautada e escrevi:



























"O Êxodo Recifense"

No dia 21 de julho de 1975, aproximada-

mente às 10:00 hs (sic) do dia, ouviu-se um boato de

que "Tapacurá estourou!!!" e foi tumulto total na

cidade do Recife, no centro. Na ponte Duarte Coelho

só se via o povo correndo e gritando, mulheres gritan-

do, tendo ataques de histeria, gestantes, algumas até

com novo meses de gestação, a cidade entrou em pâni-

co total, tiraram até os blocos da Av. Conde da Boa

Vista com a Rua da Aurora para passarem os carros.

a) JCavalcantiJr

Olinda, 21 de julho de 1975 [desenho de uma gota] Sorria

(Transcrição da ficha escrita em 21.jul.1975)

Sei que além desta minha história pessoal muitas outras pessoas as têm. Só falta contar. E aí, caro leitor, se viveu esse episódio no Recife, não quer contar a sua história do momento?

E você, jovem, que não viveu o momento, quer saber mais?

Comentem nesta postagem, abaixo.





19 junho 2025

Sobre Seres Humanos e seres desumanos

 

Se nos autointitulamos Seres Humanos, não podemos agir como os seres desumanos. Seres desumanos se autointitulam, também, de Seres Humanos, mas não o são.

Seres Humanos acolhem, os desumanos abandonam. Há três anos, um certo ser desumano abandonou, na frente da casa em que habito, numa caixa de papelão, nove gatinhos e dois gatos adultos.

Eu e meu companheiro, Humanos que somos, e, sendo tutores de uma cachorra e uma gata, idosas, compramos ração e ficamos alimentado-os, fora do muro da casa, afinal, animais domésticos precisam de alimentação para continuarem vivos. Mas, vieram as chuvas no final daquele maio de 2022 e, como animais domésticos buscam acolhimento e abrigo das intempéries da Natureza, eles invadiram a casa em que habitamos. Com o abrandamento das chuvas, continuamos a alimentá-los extramuros, até que um outro certo ser desumano colocou veneno onde eles comiam. Gatinhos lindos e simpáticos, potencialmente carinhosos, começaram a morrer no jardim e na porta de casa. Nós, Seres Humanos que somos, nos incomodamos com isso e passamos a dar-lhes comida intramuros. Não tínhamos condições de castrar esses animais e não conseguimos ajuda para fazê-lo, apesar de procurarmos, também, o poder público, que dificultou bastante o acesso.

Animais domésticos precisam de acolhimento, não de veneno. Recentemente, entre os dias 13 e 15 de junho de 2025, sete, isso mesmo, SETE gatinhos apareceram mortos no terreno da casa em que habitamos, com sinais de envenenamento. Com toda certeza, mais um ser desumano ofereceu veneno aos filhotes. Bichinhos carinhosos, que não faziam mal a ninguém. Tem gente que reclama do barulho deles nos seus acasalamentos. Para Seres Humanos, esse barulho é "som da Natureza". Para seres desumanos esse som é "incômodo".




Nossa cachorra, uma vira-lata de 13 anos adoeceu também nesse período. Os gatos que sobreviveram, podem acreditar, têm sido muito mais compreensivos que esses seres desumanos que odeiam a Natureza. Observando a gente cuidando da cachorra, ficaram em silêncio, observando o nosso aperreio no cuidado da cachorra. Nem reclamaram da demora em serem alimentados. Denotando que são seres muito melhores que os tais seres desumanos que se autointitulam Seres Humanos, que de Humanos não têm nada, a não ser o formato do corpo.

17 fevereiro 2025

Quando conheci seu Clídio e família e Elefante de Olinda.



O ano era 1971. 

Chegávamos pra morar em Olinda, vindos da Vila dos Comerciários, depois de passarmos dois meses na Cidade Marechal Castelo Branco, na Zona Sul do Recife, conjunto residencial do Grupo LUME, que ficava por trás do Geraldão.

Era 12 de fevereiro daquele ano. Uma sexta-feira. 

Arrumamos a mudança e no dia 13, fui pra casa de vovó Maria, que morava na Conde da Boa Vista e eu fui pra lá pra brincar no corso, que começava no domingo, dia 14, indo até o sábado de Zé Pereira, dia 20 de fevereiro naquele ano. (Não sabíamos, ainda, que no próximo Carnaval o corso seria proibido pela ditadura militar que se instaurou no Brasil em 1964).

Voltei pra Olinda no domingo de Carnaval, dia 21. 

Mamãe juntou os cinco filhos e fomos, depois do almoço, pro Quartel-general do Frevo, que ficava na frente do Colégio São Bento, na Sigismundo Gonçalves. Ali, víamos desfiles de agremiações carnavalescas que não conhecíamos direito. Era muito massa fazer o passo quando as orquestras passavam tocando um frevo rasgado na avenida. Fizemos isso também na segunda.

Na terça-feira gorda, o desfile era na Avenida Getúlio Vargas, pois Pitombeira saía do Samburá e Elefante saía de Zé Pequeno. E seguiam no rumo do Sítio Histórico. Vassourinhas também saía nessa avenida na terça-feira, mas não me lembro de onde.

Passou Pitombeira e depois, Elefante. Ainda não conhecíamos direito as músicas das agremiações. Quando Elefante passou, tocando seu hino, fiquei arrepiado e me apaixonei por Elefante e aprendi logo seu hino:

Ao som dos clarins de Momo

O povo aclama com todo ardor

O Elefante exaltando as suas tradições

E também seu esplendor.



Olinda, este meu canto

Foi inspirado em teu louvor

Entre confete e serpentina

Venho te oferecer

Com alegria, o meu amor



Olinda!

Quero cantar

A ti

Esta canção:

Teus coqueirais, o teu sol,

O teu mar

Faz vibrar meu coração

De amor, a sonhar

Minha Olinda sem igual

Salve o teu carnaval!



Fiquei todo arrepiado com o frevo e fui procurar saber de quem era essa música e decorei a letra, que era de Eduardo Wanderley e Clídio Nigro fez a música.

Passamos uns perrengues e tivemos que sair do nosso apartamento, que foi alugado e assim, alugamos um apartamento no Ed. Dalva Cardoso, também no Bairro Novo, na Av. Getúlio Vargas.

Do outro lado da avenida, quase de frente ao prédio em que estávamos, moravam numa casa o casal Seu Clídio e dona Laura, com Dora, Cláudia (Cada) (que conheciam mamãe) e Fernando (Índio).

Eu já fumava, apesar de ter doze anos e mamãe sabia1. Então, sempre depois de jantar, eu ia passear pela avenida Beira-mar, no rumo de Casa Caiada fumando um cigarro.

Numa noite dessas, conheci um senhor, que também fazia esse percurso. Descobri que era seu Clídio, o pai das amigas de mamãe e de Índio, que já era meu amigo, pois, como eu, era adolescente também nessa época e tínhamos um amigo comum, Kléber (que eu conhecia da Vila dos Comerciários e tinha vindo morar em Olinda havia mais tempo que eu). 

Daí pra frente, seu Clídio me contava as histórias das músicas dele, de como surgiu Elefante, falava dos carnavais que passaram, de Donzelinhos, de outras agremiações carnavalescas da cidade que àquela época já não mais existiam e as que ainda sobreviviam… Eu escutava seu Clídio maravilhado. Desde quando eu tinha 12 anos.

Aliás, vale uma observação, foi nessa casa que tomei pela primeira vez uma bebida super-refrescante: vaca preta (sorvete de creme com Coca-cola), que Dora, filha de seu Clídio me ofereceu.

Em 1977, ano que desfilei no Clube Carnavalesco Misto Elefante de Olinda, a Diretoria de Elefante conseguiu a cessão do Clube Atlântico para fazer um baile de Carnaval e seria em homenagem a seu Clídio. Eu fui escalado pra levá-lo ao Clube para receber a homenagem.

Depois, no dia 18 de fevereiro, sexta-feira da semana pré-carnavalesca, era o dia do trote de Elefante. Dessa vez, fiquei como sinal de onde seu Clídio estava. Eu ficaria em pé, ao lado dele na janela pra sinalizar ao porta-estandarte e ao maestro, onde se encontrava Seu Clídio, que, com sua família estava morando na rua Prudente de Morais. Passou o estandarte, fez a reverência, a orquestra parou na frente da casa e tocou Olinda Nº 2 e Banho de Conde e foi tão emocionante, pois foi uma surpresa pra ele que pensamos fazer eu e Carlos Eugênio, que era um dos diretores do Clube. Sei que nessa homenagem chorávamos eu, seu Clídio, mamãe e todo mundo que estava na casa nessa hora. Foi um grande momento.

Carlos Eugênio me chamava de "Ronquinho" porque eu roncava quando gargalhava. (Hoje ainda ronco ao gargalhar, mas não é sempre). Ele era noivo da irmã de um amigo do Colégio. E quando eu soube que ele era da Diretoria do Clube, expressei meu desejo de desfilar. 

Tinha uma cota a cumprir e ele ajudou muito na minha cota porque eu não tinha condições de suprir toda ela. Vendas de rifas, camisas, macacões e até mesmo bebidas das festas, mas eu era muito tímido e não conseguia vender nada. Ele dizia: “Vou botar na cota de '‘Ronquinho’'”. Assim, pude desfilar sem problemas.

Também é importante dizer que nos anos 1970, o Bairro Novo sediava a já tradicional troça Virgens do Bairro Novo e também o Bloco dos 100 grilos e o Bloco Chapéu de Bode que era um bloco só de homens, assim como as Virgens.

1Nessa época, fumar era o “Sucesso” (Hollywood), “Um Raro Sabor” (Carlton), “Coisa de Cabra Macho” (Arizona). Propaganda de cigarros era toda hora na TV, no rádio, em cartazes de rua... Só não era permitido fumar nos cinemas do Centro (sala de projeção), pois era permitido na sala de espera, e nos ônibus do Recife. Nos ônibus intermunicipais, como os de Olinda, era "proibido", mas ninguém era molestado se fumasse. Até em banco se fumava.









17 maio 2024

Dia Mundial Contra LBGTQI+fobia 2024

 

Hoje, 17 de maio de 2024, comemora-se mais um Dia Mundial Contra a LGBTfobia.

Foi num dia como este, nos já longínquos anos 1990, que a Organização Mundial da Saúde deixou de considerar pessoas homossexuais como desviados/as e transtornados/as sexuais.

Lembro que a luta foi árdua. Dos anos 1980 para cá, muita coisa mudou: deixamos de ser tratados pela mídia como culpados pelos nossos assassinatos, diversos direitos civis reconhecidos pelo arcabouço legal do país. Passamos a ter direito a casar com nossos/as companheiros/as, tivemos reconhecido o direito de adotar filhos/as.

Antes, pessoas solteiras podiam adotar crianças, mas, caso fossem pessoas homossexuais, tinham de se esconder, pois, se durante o processo, a Promotoria ou o Serviço Social tivesse conhecimento da homossexualidade da pessoa requerente, era comum ser contra a adoção e tínhamos esse direito negado.

Porém, ainda resta muita coisa a conquistar. O Brasil é o país que mais assassina pessoas LGBT pelo simples motivo de serem quem são. O ódio que muitos sentem de nós é algo avassalador. Travestis e pessoas transexuais não têm sequer o direito de fazer suas necessidades biológicas em paz. O constrangimento é a tônica.

Afinal, essa gente não merece ter paz. Quem mandou escolher essa vida?

Acontece que só sendo muito imbecil escolher ser discriminado, vilipendiado. Depois de muitos lobotomizados, e de outros tratamentos ultrajantes e degradantes, a OMS já admite que não somos doentes mentais, muito menos sem-vergonha! 


 

Somos GENTE, “com cara, dente e nariz pra frente”!

Vamos, gente! A luta, ainda, continua!

Salve 17 de Maio: Dia Mundial Contra a LGBTQI+fobia!

15 dezembro 2023

Por uma TDF Raiz!

Todo mundo que me conhece sabe que uso LibreOffice para escrever, fazer edição de textos, preparar textos para serem publicados. Isso desde "dois mil e antigamente".

Por causa disso, sempre participei de fóruns, listas e grupos de usuários do LibreOffice pra tirar dúvidas. Assim, cheguei, em 2021, no Time Brasileiro de Tradução e Revisão da Documentação do LibreOffice. Depois, me tornei membro da Fundação TDF (The Document Foundation), que tem sede em Berlim, Alemanha.

Este ano teremos eleições para o Conselho Administrativo da TDF e temos uma candidata brasileira ao Board. É Eliane Domingos.

Na quarta-feira, dia 13 de dezembro, tivemos um debate dos candidatos ao Conselho com a Comunidade Brasileira que, além de mim, estavam nossa candidata, Eliane Domingos, Timothy Brennan Jr, Túlio Macedo, Olivier Hallou, Gustavo Pacheco, entre outros e foi muito bom, com a participação de candidatos do mundo inteiro respondendo questionamentos feitos por brasileiros.

 

Por uma TDF Raiz!

 

Vídeo do debate com brasileiros.

 


19 setembro 2023

Pastores de "ovelhas" descerebradas...

Segundo determinada excrecência da política pernambucana, que atende pela alcunha de “pastor...”, o casamento “representa uma realidade objetiva e atemporal, que tem como ponto de partida e finalidade a procriação, o que exclui a união entre pessoas do mesmo sexo”1.

Ora, conheço uma porrada de gente heterossexual, que se casou não pra procriar, mas pra serem felizes, companheiros de vida, sem querer exatamente "procriar".

De acordo com esse tipo de “pensamento”, retrógrado, anacrônico, até mesmo enfadonho(!), pessoas idosas não devem se casar também, uma vez que mulheres depois de uma certa idade, não conseguem mais procriar, por mais que desejem. Bem como homens e mulheres heterossexuais sabidamente estéreis também não devem ter direito ao casamento.

Enquanto o país passa por problemas sérios de fome, racismo, falta de escolas, analfabetismo, existem "deputados" que estão preocupados com a cama dos cidadãos e cidadãs que pagam impostos. É muita falta do que fazer!

1“Comissão da Câmara pode votar hoje PL que proíbe união homoafetiva”, disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2023-09/comissao-da-camara-pode-votar-hoje-pl-que-proibe-uniao-homoafetiva#. Acesso em: 19.set.2023.


 

17 setembro 2023

22ª Parada da Diversidade de Pernambuco, Boa Viagem, Recife, 17 de setembro de 2023

Esta Parada (22ª Parada da Diversidade de Pernambuco, 17 de setembro de 2023), pra mim, foi marcante: primeiro porque, desde que eu participo do Fórum e que fico na Portaria do palco (e isso já faz alguns anos!), pela primeira vez, meu companheiro Ivanildo foi, com minha irmã Kathleen.

Depois, fui para o trio do Coletivo de Lésbicas, mas como ultimamente fico com o estômago meio embrulhado com outra cerveja que não seja Heineken. (que bicha velha mais metida! Só quer ser as "pregas de Odete!"), desci para comprar uma lata, pois estava querendo molhar a garganta. Nisso, findei perdendo o trio das meninas e sendo chamado por Anderson, do trio Ser Coletivo, no qual subi. Irene Freire fez uma fala nesse trio, aí, eu fui descer novamente pra pegar outra latinha de cerveja. Eu e Irene descemos juntos e ela me chamou pro trio do Bloco da Diversidade.

Músicas de carnaval, o que me atiçou a verve de folião. Depois, a presidenta da UNE fez um discurso que me emocionou a ponto de chorar! Lembrei do início do GATHO, quando a gente começava a brigar pra ter o direito de viver livremente, amando, sentindo prazer. Cobrando o devido respeito da sociedade.

E como agradeci à vida por ver, ouvir, viver esse momento do discurso da líder estudantil (eu também fiz movimento estudantil.) E lembrar da luta inclusive contra o discurso da esquerda tradicional, que nos rotulava de “decadência do capitalismo”

E eu, aqui, tendo testemunhado tudo isso, me emocionei com o discurso da "Universidade Fora do Armário"!.

Agradeço a todo mundo que estava junto conosco hoje. (Em especial a Rivânia, Anderson, Irene)

Parabéns pra nós! Esperando estar bem no próximo ano pra poder, mais uma vez, participar da Parada da Diversidade!

Muito obrigado, pessoas queridas do Fórum LGBT de Pernambuco!

Para o ano tem mais! E já tem data: 15 de setembro de 2024!

Fotos: Ivanildo Oliveira:

 

 




 

25 agosto 2021

Lançamento do Guia do Writer 7.1 (LibreOffice)

 Muitos dos meus amigos sabem que eu sou fã de uma suíte de escritório que é gratuita e que resolve muito bem tudo o que preciso para escrever e fazer contas. Essa ferramenta é o LibreOffice. Inclusive já coloquei o prêmio que recebi da TDF, logo aqui, à esquerda, por participar ativamente da comunidade brasileira de usuários da melhor suíte de escritório, na minha opinião. Se quiser ir ao site do LibreOffice, é só clicar no meu troféu aqui do lado esquerdo.

Estamos lançando o livro Guia do Writer 7.1.

Podem seguir o link:

https://pt-br.blog.documentfoundation.org/2021/08/23/chegou-o-guia-do-writer-7-1/











17 maio 2021

Dia Internacional Contra a LGBTfobia: 17 de maio de 2021

 

Há cerca de 30 anos, a Organização Mundial da Saúde (OMS), finalmente decide retirar de sua Classificação Internacional de Doenças (CID), o código 302.0 que dizia que o “homossexualismo” era “desvio e transtorno sexual”. Lembremo-nos que a luta pela exclusão desse código começou nos anos 1970. As associações estadunidenses de Psicologia e Psiquiatria não seguiam mais essa classificação e apoiavam a luta de pessoas homossexuais que defendiam o fim desse código ainda naquela década.

Com base nesse código, muita tortura foi cometida contra pessoas que não se “enquadravam” no modelo heteronormativo. Desde internamento e tratamentos com hormônios, medicamentos psicotrópicos, eletrochoques e até mesmo lobotomia foram prescritos pelos médicos a fim de “obrigar” pessoas homossexuais a serem heterossexuais. E o resultado? Pessoas mais adoecidas ainda, porém com um detalhe: ninguém deixou de ser quem era. Mesmo “dementes”, depois da lobotomia, as pessoas não deixavam de ser quem eram. Podiam até deixar de ter apetite sexual, mas suas orientações sexuais jamais foram alteradas.

Aqui no Brasil, na década de 1980, com a explosão de grupos de defesa de pessoas homossexuais, lembro que foi uma das primeiras grandes lutas do povo “homossexual”: lésbicas, gays, travestis…

Nas eleições de 1982, em Olinda (PE), com o apoio de membros do Grupo de Atuação Homossexual (GATHO), o candidato a vereador mais votado foi um deficiente físico que apoiou nossa luta contra esse código da OMS. O vereador era Fernando Gondim da Mota. Não era homossexual, mas apoiava nossa causa e apresentou, creio que em 1984, na Câmara Municipal de Olinda, uma proposta de Moção de Repúdio a essa norma da OMS, a qual foi aprovada. Infelizmente, na época, não conseguimos sensibilizar nenhum vereador do Recife, ou de qualquer outra cidade da Região Metropolitana do Recife. Vale dizer também que, graças a esse mesmo vereador, foi incluída, no texto da Lei Orgânica de Olinda, promulgada no ano de 1990, a expressão “orientação sexual” no capítulo referente às proibições de discriminação no nosso município.

Finalmente, em 17 de maio de 1990, a OMS excluiu esse código da sua CID. Deixando a HOMOSSEXUALIDADE de ser um “desvio e transtorno sexual” para ser simplesmente uma das expressões da sexualidade. Essa data ficou conhecida inicialmente por IDAHO (International Day Agaisnt Homophobia) e hoje é comemorada por todas e todos LGBTQIAP+ como o Dia Internacional de Luta Contra a LGBTfobia.

Viva o Dia 17 de Maio!



07 fevereiro 2021

2021, o ano sem Carnaval.

 

O que seria da vida, afinal, se não houvesse Carnaval?” Perguntava Edgard Moraes, em “Homenagem à Folia”, um de seus inúmeros frevos de bloco…

Pela primeira vez, estamos num ano em que não haverá Carnaval. Entendo a necessidade disso, mas não me conformo. Carnaval é a Minha Festa. Minha “Folia Querida”, cantada no frevo “Carnaval Divinal”…

Algumas músicas me tiram lágrimas dos olhos. “Saudade”, de Aldemar Paiva e que, com meu irmão Nicolau fomos cantando, levando o corpo de mamãe pra cerimônia de cremação… Outra é “Frevo de Saudade”, de Aldemar Paiva e Nélson Ferreira.

Este ano, vendo a live do Bloco da Saudade, em casa, procuro fechar os olhos e lembrar que nesta próxima quarta-feira, dia 10 de fevereiro deste fatídico 2021 estaríamos com meu irmão Nicolau, tias, primas, primos, amigas, amigos… nos confraternizando, brincando, cantando, dançando as músicas tocadas pelo maestro Bozó e sua orquestra de pau e corda, no acerto de marcha do Bloco da Saudade.

Quanta saudade…

Choro sim. Sou um chorão de marca maior mesmo. E o Carnaval sempre me faz chorar. De alegria, de saudade de tempos em que, menino, brincava na Vila dos Comerciários atrás do “Amantes das Flores”, das tribos de “caboculinhos” Tabajara e Canindé. Do CORSO, na avenida Conde da Boa Vista, Aurora, Imperatriz, Manuel Borba, Dom Bosco, Conde da Boa Vista… Do Carnaval de Olinda dos anos 1970, em que havia o QG do Frevo, na Sigismundo Gonçalves, na frente da Praça do Jacaré, por onde passavam as agremiações no tríduo momesco!.

Mas também tinha o Trote de Elefante, seu Clídio Nigro, que eu gostava de conversar e ele também gostava muito de conversar comigo. Ele falava das suas músicas do Carnaval de Olinda, principalmente “Banho de Conde” e “Olinda nº 2”, mais conhecida do Carnaval da minha cidade.

Depois, vi o grande boom do Carnaval de Olinda, em 1980. Com palcos armados nas praças, com os conjuntos (hoje são chamados de “Bandas”) locais com muito frevo, ciranda, maracatu… entrando noite afora, como acontecia nos clubes do Recife. Aliás, acho que 1980 foi o último ano de carnaval de clubes do Recife. Na década anterior, era Carnaval de Olinda de dia e bailes noturnos de carnaval nos clubes do Recife.

E agora, nessa pandemia, não tem Carnaval. Nas ruas… Mas tem Carnaval sim, no meu peito que bate mais acelerado ao escutar os compositores, maestros e cantores do Meu “Carnaval Divinal”, que espalha alegria, irreverência, fantasia a todas foliãs e todos foliões…

Também vale destacar que TERÇA-FEIRA, DIA 9 DE FREVEREIRO DE 2021, É O NOSSO DIA DO FREVO!

Viva o Carnaval de Pernambuco, que “é Vibração, é o gozo, é o suco, graças ao Frevo e à Federação” (Carnavalesca de Pernambuco).

Evoé, Baco!

Não deixem de ver o Baile Virtual do Bloco da Saudade no link: Baile Virtual do Bloco da Saudade 2021



Escrito em 7 de fevereiro de 2021.

10 junho 2020

Olinda e o Bar Ecológico

Pouco tempo antes de escrever o texto intitulado "Há 40 anos...", recebi um link da minha amiga Dida Cavalcanti, no Whatsapp

Um link para um vídeo que achei ótimo e ilustra bem Olinda há pouco mais de 40 anos. 

Sei que tem uma porrada de gente que conheci na época. Pessoas que até hoje quando nos encontramos fazemos festa uns com os outros e as inevitáveis lembranças.

Era um tempo em que se bebia muito, se fumava muito e se transava muito. O tempo em que "Lavou, tá novo!"

Há, também, um outro texto, em que trato de Carnavais e eleições em 1970-80.

O vídeo é dirigido por Gabriel Çarungaua e o tema é o BAR ECOLÓGICO, em Olinda.

Talvez fique só o endereço do vídeo:

https://vimeo.com/396839205/253a501d64


25 abril 2020

Carnavais e eleições em Olinda (Anos 1970-80)




Quando cheguei para morar em Olinda com minha mãe e meus irmãos, em 12 de fevereiro de 1971, eu ia fazer 12 anos dali a um mês. O prefeito era Ubiratan de Castro, que havia sido eleito para um mandato tampão, pois o prefeito eleito em 1969, Marcos Freire, renunciara ao cargo.
Chegamos em plena semana pré-carnavalesca. Logo depois da arrumação da casa, eu fui pra casa da minha avó, na Conde da Boa Vista, no Recife, pois havia o Corso, com mela-mela e banhos de água. (Foi o último Corso do Recife!). Em Olinda não tinha Corso.
Durante o Carnaval propriamente dito, eu já havia voltado pra casa e acompanhei os desfiles de Pitombeira dos Quatro Cantos e de Elefante de Olinda. Fiquei apaixonado pelo segundo. 
Em Olinda, havia o QG do Frevo, na Avenida Sigismundo Gonçalves, em frente ao Colégio de São Bento/Praça do Jacaré (Praça Barão do Rio Branco).
A próxima eleição para prefeito foi em 1972 e foram candidatos pelo Movimento Democrático Brasileiro (MDB), Roberto Freire e pela Aliança Renovadora Nacional (ARENA, partido que dava sustentação ao governo militar) concorreu com três sublegendas: Aredo Sodré da Mota (ARENA 1), o ex-prefeito Benjamin de Aguiar Machado (ARENA 2) e o professor de Língua Portuguesa e autor de livro didático, José Brasileiro Vilanova (ARENA 3). Entre os candidatos a vereador daquela época, eu gostava muito de João de Lima Neto. Ficava fascinado pelo seu discurso contra o governo militar. Nessa época, eu contava 13 anos. Foi eleito Aredo Sodré da Mota.
Nas eleições municipais de 1976, concorreram, pelo MDB, o professor universitário Germano de Vasconcelos Coelho e pela ARENA, dois candidatos em sublegendas: o deputado Nivaldo Machado e o professor José Brasileiro Vilanova. Foi eleito Germano Coelho e fez uma “revolução” nesta cidade.
Eu ainda não podia votar, pois tinha 17 anos. (Nessa época, o cidadão era OBRIGADO a votar depois que completasse 18 anos). Germano começou com uma campanha para cobrar do governo da Holanda uma “indenização” pelo incêndio sofrido em 1630, remexeu completamente no Carnaval da cidade. Foi Germano quem começou com essa “fome” por Olinda no Carnaval, pois incentivou os artistas da cidade a decorarem as ruas do Sítio Histórico para a grande festa de 1978.
Também foi no seu governo que Olinda conquistou o título de Cidade Patrimônio Nacional, em 1980, concedido pelo Congresso Nacional e, em 1982, o título de Patrimônio Cultural da Humanidade, concedido pela Organização das Nações Unidas para a Ciência, Cultura e Educação (UNESCO).
Nessa época, o prefeito eleito em 15 de novembro 1976, assumia a Prefeitura em 15 de março de 1977, portanto, depois do Carnaval.
O Carnaval de 1977 correu normal, como os anteriores, sendo mais diurna a festa maior da minha cidade.
O Carnaval de Olinda morria no final da tarde, pois o quente, nas noites de Carnaval daquela época, eram os bailes de clubes. Nos clubes havia as prévias: no Clube Português do Recife, se brincava o Baile Municipal do Recife, o Baile da Saudade… No Clube Internacional do Recife, havia o Bal Masqué. No Baile Municipal e no Bal-Masqué havia concursos de fantasias e havia uma grande torcida pelos concorrentes: Múcio Catão, Jésus Henrique, Diva Pacheco, João Andrade, entre outros.
Os clubes do Recife realizavam bailes de Carnaval noturnos, mas haviam os bailes mais “licenciosos”, como as Manhãs de Sol do Sport Clube do Recife e o Baile dos Casados, no Atlético Clube de Amadores.
Nunca fui a nenhum desses dois bailes, mas, lenda urbana ou não, a criatividade das notícias sobre esses dois bailes eram lendárias e excitantes. Confesso que era engraçado ouvir as mulheres, com muita raiva e ciúmes, porque seus maridos/noivos/namorados haviam ido à Manhã de Sol do Sport, e/ou ao Baile dos Casados do Atlético.
Até completar 14 anos, eu não podia frequentar os bailes noturnos de Carnaval, só podia ir às matinês e manhãs de sol (não no Sport, pois era proibida para menores!).
Quando completei 14 anos, mamãe se associou e nos associou todos ao Clube Português do Recife, pois era o único que tinha uma categoria de sócios que dispensava o pagamento de “joia”, que era uma taxa cobrada para se associar aos clubes.
O Clube Português do Recife criou uma categoria de sócios que era “contribuinte”. Pagava-se uma mensalidade que cabia no orçamento das pessoas de menos posses. Esses sócios tinham o direito de frequentar aulas de natação, a piscina, as festas e os bailes noturnos de Carnaval.
Lá em casa, quem completasse 14 anos, já podia ir ao baile noturno com mamãe. As irmãs de minha mãe também se associaram e todos nós íamos (tias, primos...). Brinquei nos bailes noturnos de 1974 a 1979. Em 1980, começou a ter, em Olinda, o Carnaval não só diurno, mas também noturno, pois a Prefeitura contratou conjuntos (bandas) locais pra animar o Carnaval noturno na Praça de São Pedro, Praça do Carmo e Praça da Preguiça (Abolição).
Em 1981, os bailes noturnos de Carnaval deram prejuízos aos clubes, pois todo mundo veio pra Olinda brincar o melhor Carnaval de rua. Em 1982, não houve mais bailes noturnos nos clubes do Recife, ficando só os bailes já tradicionais.

17 abril 2020

Há 40 anos...


Tenho um orgulho da gota serena de participar deste Fórum LGBT de Pernambuco!
E pensar que há 40 anos surgiu um grupo de pessoas, do qual fiz parte, que resolveu responder aos jornais de Pernambuco pelo fato de tratarem assassinos e espancadores de pessoas que tinham como objeto de desejo pessoas do mesmo gênero como heróis da sociedade. Afinal, “frango tem mais é que apanhar pra ser homem, ou morrer, pra livrar a sociedade dessa mancha!”
A mídia da época nos tratava com chacota: “Era só o que faltava: Sindicato das bichas!” (Diário da Noite, 14/08/1980)

Nesses 40 anos avançamos muito: embora ainda existam assassinos lgbtfóbicos, a mídia não mais os trata como heróis, mas como o que são verdadeiramente: assassinos. Pessoas que espancam lésbicas, gays, travestis e transexuais também não são mais considerados heróis, mas covardes criminosos de ódio.
Há 40 anos, pichávamos as paredes e muros com a frase “Dar o cu é um ato político! Viva 28 de junho!”
Há 40 anos, tínhamos medo de dizermos quem e o quê somos, afinal, podíamos perder o emprego, ser despejados do imóvel em que morávamos.
Não quer dizer que isso não mais acontece hoje em dia, mas temos leis que nos protegem e podemos acionar o poder judiciário diante desses abusos.
Naquela época, se estávamos num barzinho com nossos namorados, éramos expulsos, hoje, vemos casais de meninas e de meninos nos shopping centers da vida e nas ruas de mãos dadas.
No tempo em que “dar o cu era um ato político”, vivíamos morrendo de medo de dizer quem éramos às nossas famílias, aos nossos amigos. Lembro que em 1985, por insistência e patrocínio do saudoso João Antônio Mascarenhas, publicamos no Diário Oficial de Pernambuco o excerto do Estatuto do GATHO. As lideranças mais velhas não assinariam. Coube a um jovem funcionário da Fundação Centro de Preservação dos Sítios Históricos de Olinda, órgão ligado à Prefeitura de Olinda, com 26 anos à época, assinar o bichinho, não sem antes pedir “autorização” ao prefeito, a fim de não ser exonerado. O funcionário era eu, Jackson Cavalcanti Junior.
Por volta dessa mesma época, a Câmara Municipal de Olinda acolheu proposta do vereador Fernando Gondim da Motta de fazer moção de repúdio ao código 302.0 da Classificação Internacional de Doenças da Organização Mundial da Saúde, que dizia que os homossexuais eram “desviados e transtornados sexuais”. Além de Olinda, foram tantas moções de repúdio tanto de câmaras municipais, como de organizações científicas que o Conselho Federal de Medicina resolveu não mais observar, no Brasil, esse famigerado código. Vale lembrar que a OMS, somente num 17 de maio da década de 1990, deixou de nos considerar oficialmente “desviados e transtornados”.
O que sabemos é que, graças àquela turma do final da década de 1970, e das gerações que se seguiram, hoje em dia até atores e atrizes de telenovelas e até  jornalistas que aparecem todos os dias nas nossas telas de TV já declararam os objetos de seus amores homoafetivos.
A luta foi e é árdua, mas cada vez menos o tal “amor que não ousa dizer o nome” ousa, atreve-se a dizer e não sentir “vergonha” da dor e da delícia de ser o que se é, de dizer o quê e quem somos. Viva nós!
Sigamos lutando, até que tenhamos conquistado nossa liberdade e que não precisemos mais da Parada da Diversidade para afirmar a nossa disposição de lutar por nossos direitos fundamentais: o direito inalienável de ser quem e o quê somos, sem termos nossos corpos vilipendiados somente pelo fato de sermos seres humanos que amamos pessoas, independentemente de gênero, raça, cor, orientação sexual, origem....

13 novembro 2019

Manoela Alves entrevista Weligton Medeiros e Jackson Júnior no #TVPEnoAR





Com Weligton Medeiros, do Leões do Norte e Manoela Alves, também do mesmo grupo, num papo descontraído sobre militância LGBT nos seus primórdios. Valeu TV Pernambuco, Manoela, Weligton! Foi massa o bate-papo

30 julho 2019

25 Jovens Negras Pernambucanas que você precisa conhecer

Vale a pena a leitura para se inteirar sobre a cena das mulheres jovens negras em Pernambuco.



25 Jovens Negras Pernambucanas que você precisa conhecer: Em alusão ao mês das mulheres negras latino-americanas e caribenhas, o Coletivo de Juventude Negra Cara Preta decide destacar jovens...

03 fevereiro 2019

TÔ NAMORANDO UM HOMEM TRANS?! E AGORA?! - Põe Na Roda









Eu gosto da masculinidade.  Sou homem cis, sou gay e não acho que teria qualquer problema em me relacionar com homem trans.

O que eu ntenho certeza ´pe que a gente tem que buscar a felicidade. E priu!

E não venha me dizer que "é impossível ser feliz sozinho" que eu não acredito. A gente tem que aprender a ser feliz sozinho pra conquistar o direito de fazer felicidade de outro.

Sejam felizes, meninos!



HOMENS TRANS RESPONDEM - Põe Na Roda