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02 fevereiro 2026

60 anos operado do coração

 

Neste dia 2 de fevereiro de 2026 faz 60 anos que fui operado do coração. Eu nasci com uma deficiência cardíaca congênita chamada Comunicação Interatrial, Também conhecida pela sigla: CIA. O ano era 1966. Independentemente do que acontecia no país e no mundo, tratarei de uma história pessoal e minhas impressões atuais sobre a vida que venho vivendo desde que nasci, a 13 de março de 1959.

No dia 2 de fevereiro de 1966, eu morava na Vila dos Comerciários (seu nome oficial era Conjunto Residencial Lafayette Coutinho), no Grupo 45, casa 14,térreo e estava na casa de vovô Vasco e vovó Dolores, que moravam na casa acima da que eu morava. Quando cheguei em casa, encontrei Zezé, enfermeira do Hospital D. Pedro II, com mamãe, arrumando minha maleta. Perguntei se ia ser operado. Zezé respondeu que não, mas que eu ia fazer uma série de exames e, para que mamãe não tivesse que me levar todos os dias, eu ia passar alguns dias no hospital pra fazer esses exames.

Ao chegar no hospital, fiquei num quarto com mamãe. Depois, mamãe saiu, dizendo que ia preparar meu almoço.

Achando que mamãe estava demorando muito pra voltar, vesti minha roupa, calcei as meias, peguei os sapatos e fui me dirigindo à saída, calçaria os sapatos no corredor do hospital, pra não fazer barulho.

Ao chegar à porta, a enfermeira me chamou pra voltar pra cama, pois ia tomar remédio. Voltei pra cama com raiva. Ela me deu um copinho com um remédio muito amargo e fiz careta por causa do amargor. Ela me ofereceu uma maçã, que comecei a comer...

Acordei na madrugada do dia 3 e tomei um susto, pois via duas televisões com aquelas linhas que se mexiam (depois soube que eram meus batimentos cardíacos). Chamei por mamãe e entrou uma enfermeira chamada Rosa, com uma injeção pra aplicar em mim. Perguntei sobre aquele aparato todo e ela me disse que pela manhã, os médicos e mamãe viriam falar comigo. Aplicou a injeção na minha coxa e eu dormi.

Acordei cedo, já com o dia claro. Mamãe estava com meu mingau e os médicos: Dr. Mauro Arruda, Dr. Milton Lins e Dra. Norma Palmeira. Me explicaram aqueles monitores. Me disseram que o exame era complicado e eles resolveram operar logo pra encerrar as minhas idas frequentes pra fazer exames.

Oito dias depois, eu estava em casa. Era perto do Carnaval. Tocava frevo nas rádios.

Eu ficava pulando "escondido" no quarto dos meus pais, afinal, "quem ouve o frevo, não pode ficar parado", já diz o frevo de Capiba. Eu, criança, perto de completar 7 anos, não era diferente. Me punha a pular sobre o colchão de molas dos meus pais.

Ao ser flagrado, escutava um "te aqueta, menino!" E me controlava sob protestos. É que eu ainda não tinha tirado nem os pontos da cirurgia.

Lembro que uma vez, ainda com pontos no peito, duas pequenas incisões de cada lado do umbigo (onde ficaram os drenos), nas duas virilhas, onde numa ficava o soro e na outra ficou a máquina da circulação extracorpórea e no pulso (que também era parte dessa circulação pela máquina).

Lá em casa não tinha grades nas janelas ainda. Teve um dia que eu escutei acordes de frevo. Era o bloco Amantes das Flores, que estava chegando na rua Gomes Coutinho. Eu pulei a janela, pulei o muro de vovô Vasco e fui pro bloco. Meus pais, ao escutarem o frevo na rua, entraram no quarto pra me pegar pra ver o carnaval. Encontraram-me fazendo o passo junto à orquestra, sob os olhares espantados dos vizinhos.

Papai me pôs nos braços e depois dos Amantes das Flores ainda passaram as tribos de caboclinhos Canindés e Tabajaras e o Homem da Meia Noite (que eu chamava de "Gigante da Meia Noite").

Papai botou grades nas janelas dos dois quartos.

Depois do Carnaval, tirei os pontos e passei a viver uma vida normal

Até completar 17 anos fazia exames de coração uma vez por ano.

Depois, já adulto, e trabalhando na Prefeitura de Olinda, passei a fazer check ups anuais. Nunca senti mais nada relativo ao coração.

Hoje, perto de completar 67 anos, agradeço a todos os responsáveis por eu estar vivo:

Ao meu tio João, que doou sangue pra mim durante a cirurgia. Aos médicos Helena Moura (que descobriu que eu tinha um sopro no coração), Mauro Arruda, Mílton Lins e Norma Palmeira (equipe de cardiologistas), às enfermeiras Rosa, Zezé e Zilda e aos estudantes de Medicina que doaram sangue pra mim, na pessoa do Dr. Flávio Pabst.

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