Hora Legal Brasileira

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Assembleia Legislativa de Pernambuco lança a Frente Parlamentar pela Cidadania LGBT

Foi uma linda solenidade!
Para mim, a maior surpresa foi mesmo a deputada Jacilda Urquisa, uma vez que ela é católica fervorosa, motivo pelo qual ela não sancionou, há dez anos, a Lei Municipal  número 5168, de 22 de abril de 1999, de autoria do vereador de Olinda Marcelo Santa Cruz, que pune a discriminação nos estabelecimentos comerciais de Olinda. Essa Lei foi promulgada pela Câmara e jamais foi regulamentada pela deputada Jacilda que, na época era prefeita de Olinda (1997-2000). Essa lei só foi regulamentada em 19 de agosto de 2005, pelo Decreto número 196. 
Fica faltando ainda o governador Eduardo Campos regulamentar a Lei Nº 12.876, de 15 de setembro de 2005, de autoria do deputado Isaltino Nascimento, que dispõe sobre a elaboração de estatística sobre a violência contra os  cidadãos e cidadãs homossexuais no estado de Pernambuco. 



Frente Parlamentar pela Cidadania LGBT é instalada na Assembleia

Com a adesão de dezesseis deputados, foi lançada, nesta sexta (dezoito de setembro), na Assembleia, a Frente Parlamentar pela Cidadania LGBT. A finalidade da iniciativa, proposta pelo deputado Isaltino Nascimento, do PT, é reunir parlamentares comprometidos com o combate à discriminação e ao preconceito, além de apoiar e articular a discussão de proposições legislativas de interesse das Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros de Pernambuco. Na próxima quarta (vinte e três), acontece a primeira reunião do grupo, que será presidido por Isaltino.

Nessa sexta, foi promovida pela Comissão de Cidadania uma audiência pública para instalação da frente, que contou com a participação de doze deputados e de vários representantes da comunidade LGBT do Estado. Isaltino afirmou que este é um momento histórico para o Parlamento Estadual. Ele destacou que o patrono da Casa, Joaquim Nabuco, foi pioneiro na luta contra a discriminação contra os negros, e que a Assembleia dá continuidade a essa tradição em defesa dos direitos humanos. //

O coordenador do Movimento Gay Leões do Norte, Rildo Veras, denunciou que Pernambuco lidera assassinatos de homossexuais no Brasil. Ele ressaltou que não bastam apenas leis para enfrentar o problema. Ele também defendeu a implantação de políticas públicas específicas para a comunidade LGBT. //

A representante da Articulação e Movimento para Travestis e Transexuais de Pernambuco (Amotrans), Chopelly Glaudiston, lembrou que Pernambuco foi o último Estado a instituir uma entidade voltada para a defesa do segmento. Ela defendeu como principal meta a criminalização da homofobia. Chopelly ainda apontou a necessidade de um projeto de lei que possa garantir aos travestis e transexuais o direito de se serem chamados pelo nome de preferência nos espaços públicos. Também apoiaram a instalação da frente a coordenadora do Fórum LGBT de Pernambuco, Íris de Fátima, e Cristiano Oliveira, do Satirycon.

Participaram do lançamento da frente os deputados Pedro Eurico e Terezinha Nunes, do PSDB, Izaías Régis e Clodoaldo Magalhães, do PTB, Elina Carneiro, do PSB, Sérgio Leite, do PT, Nadegi Queiroz, do PMN, Luciano Moura e Nelson Pereira, do PC do B, Lucrécio Gomes, do PR, e Jacilda Urquisa, do PMDB. Todos enfatizaram a importância de combater o ódio e o preconceito contra os homossexuais. (C.F.)
Publicada em 18/09/2009


domingo, 13 de setembro de 2009

O nazismo de Rozângela Justino e o discurso dos fundamentalistas religiosos

Em agosto deste ano de 2009, um fato acontecido no Rio de Janeiro e depois ratificado em Brasília nos mostrou como existem profissionais da área de saúde picaretas. É o caso da psicóloga(?) Rozângela Justino, religiosa cristã, que se propõe a "curar" cidadãs e cidadãos homossexuais.

Justamente quem deveria cuidar para que as pessoas fossem felizes sendo elas mesmas, essa senhora acredita que homossexualidade é doença e — pior! — usava métodos de "cura" (ou CURRA?). Infelizmente, ela não descobriu ainda que é preciso tão pouco pra ser feliz: basta que viva bem consigo mesmo, reconhecendo-se como se é realmente.

Por conta disso, peço licença para reproduzir aqui trechos do texto do teólogo e historiador Márcio Retamero, que foi publicado no site da revista "A Capa", no dia 13 de agosto deste ano de 2009 e cujo título também dá o título a este post:
*Se não quiserem comentar no Multiply, para não ter de se cadastrar, pode comentar no Blog de Jackson Junior, onde este post também está publicado.

Diz Márcio Retamero:
"Bent é o título de uma peça de teatro escrita por Martin Sherman em 1979. Através da vida de dois personagens, é retratada a perseguição nazista aos homossexuais na Alemanha de Hitler. Em 1997 Sean Mathias adaptou a peça para o cinema e o filme (foto) alcançou grande sucesso de crítica e público por onde passou. Foi Bent que impulsionou pesquisas históricas nos anos 80 e 90 sobre a perseguição e extermínio promovidos pelo regime nazista aos homossexuais. Pela primeira vez, o público em geral tomou conhecimento que o mesmo regime totalitário que marcou judeus com estrelas amarelas e os matou, marcou homossexuais com triângulos rosa e os matou também.
(...)

(...). Tento compreender a recente declaração da "psicóloga" Rozângela Justino nas "Páginas Amarelas" da atual edição da revista Veja, onde ela, desvairadamente, diz que a militância gay está ligada ao nazismo.


Certamente muitos de nós pensávamos que a incompetência desta senhora estava restrita à sua prática enquanto "psicóloga", aliás, é exatamente isso que o Conselho Federal de Psicologia reconhece na censura pública que impôs à Rozângela, confirmando a punição dada pelo Conselho Regional de Psicologia do RJ: que ela é uma incompetente. Contudo, ela foi além, mostrando com a tal declaração desvairada, que além de ser incompetente na sua profissão, é também enquanto "historiadora amadora", pois mostrou num importante periódico nacional sua burrice histórica. Mal intencionada e incompetente, é isso que a Rozângela Justino é!

É mal intencionada, pois tenta inverter os fatos ao dizer que o movimento gay se apropria da ideologia e do modus operandi do nazismo, assim, ela não só justifica ao público em geral a sua pervertida e adoecida visão da homossexualidade como também ganha junto ao público simpatia pela sua causa, pois o senso comum sabe, ainda que superficialmente, que o nazismo foi um mal e ainda é identificado com o Mal Absoluto. Mal intencionada, pois disseminando uma mentira, quer se colocar no papel de vítima e perseguida, enquanto na verdade, ela e seus pares cristãos fundamentalistas como Júlio Severo e toda essa laia fundamentalista são os algozes de homossexuais tanto quanto o regime nazista foi.

Quem são, na verdade, os nazistas dessa história? (...). Rozângela é tão incompetente, tão desvairada que não percebe que o que ela e seus pares tentam fazer é exatamente aquilo que eles nos acusam de fazermos: enquanto nós afirmamos a diversidade humana, eles querem plastificá-la, torná-la monocromática, e para isso, eles precisam eliminar os homossexuais "transformando-os" em heterossexuais, como se isso fosse possível. 
Ao identificar homossexuais como doentes e pervertidos, sofredores de patologias, os "judeus" da vez, tentam, como Hitler, eliminá-los, não em campos de concentração nem com banhos em câmaras de gás, mas com terapias de reversão. Quem é, cara pálida, o nazista nisto tudo? Quem trabalha para eliminar pessoas e suas características constitutivas - a orientação sexual - visando ao estabelecimento de uma "raça" de heterossexuais? Quem usa de leituras pervertidas (...) das teorias da psicologia e até mesmo da Bíblia, para corroborar sua nefasta prática?
Não vejo nenhum homossexual trabalhando pela destruição da família como tanto gostam de acusar os fundamentalistas religiosos! Ao contrário, vejo homossexuais lutando pelo direito de se unirem diante da lei, pela adoção de crianças abandonadas por heterossexuais, a fim de lhes proporcionarem uma vida saudável, familiar, digna e honesta. Vejo homossexuais lutando por constituírem suas famílias e lutando pelo direito à igualdade diante da lei que lhes é negada pelo trabalho perverso de legisladores que professam uma fé tão pervertida quanto a de Rozângela Justino. Vejo homossexuais lutando pelo direito de existir, tendo sempre que fazer frente ao desejo sombrio, este sim nazista, de eliminá-los, de silenciá-los. Não vejo homossexuais tentando reverter a sexualidade de nenhum outro ser humano, mas lutando legitimamente pelo pleno direito de ser quem é.
Hitler, no seu desvario em "criar" uma nova raça, marcou homossexuais com triângulos rosa, os confinou em campos de concentração, os despojou de sua dignidade humana ao tratar como bicho o que é gente. Nesta vida, mata-se de muitas maneiras e uma delas é a negação do direito ao outro de existir como ele é. Mata-se, matando no outro o que lhe constitui e o identifica socialmente. Mata-se usurpando do outro sua cidadania, o marginalizando, tirando deste, sua igualdade em relação aos outros seres humanos. Mata-se, tentando, a partir de uma prática perversa, charlatã, "curandeira", reverter, reorientar a sexualidade do diferente, como faz Rozângela Justino e seus pares psicólogos "cristãos". (...)
Rozângela diz em vários textos e declarações à imprensa que está sendo silenciada, amordaçada, impedida de praticar sua profissão. Diz que "ajuda" homossexuais que voluntariamente desejam reorientação de sua sexualidade, mas não enxerga que essa gente legitimamente sofrida, vítimas de uma sociedade homofóbica, de uma religião homofóbica, de uma família homofóbica, buscam, na verdade, auto-aceitação, autocompreensão; precisam de reafirmação e de tratamento digno que lhes garanta a plena aceitação de si mesmos para terem vida feliz. E o que Rozângela faz? "Mata" a verdade dessas pessoas, adoecendo-as ainda mais, o que realmente pode levar-lhes à morte. Quem não conhece ou jamais ouviu falar de homossexuais que se mataram por não se aceitarem como tais, não-aceitação esta agravada pela religião, família e sociedade? 


(...)"

* Márcio Retamero, 35 anos, é teólogo e historiador, mestre em História Moderna pela UFF/Niterói, RJ. É pastor da Comunidade Betel do Rio de Janeiro - uma Igreja Protestante Reformada e Inclusiva -, desde o ano de 2006. É, também, militante pela inclusão LGBT na Igreja Cristã e pelos Direitos Humanos. Conferencista sobre Teologia, Reforma Protestante, Inquisição, Igreja Inclusiva e Homofobia Cristã. Seu e-mail é: revretamero@betelrj.com.